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NACHMANOVITCH, Stephen. Ser Criativo: o poder da improvisação na vida e na arte. São Paulo: Summus: Annablume, 1993.
O ato de pôr meu trabalho no papel, de pôr a mão na massa, como se diz, é para mim inseparável do prazer da criação. No que me diz respeito, não consigo separar o esforço espiritual do esforço físico e psicológico; para mim eles estão no mesmo nível e não obedecem a nenhuma hierarquia. (Igor Stravinsky)
A menos que esteja completamente encharcado de suor, você não pode pretender ver um palácio de pérolas numa folha de grama. (The blue cliff record)
Qualquer pessoa que pratique um esporte, um instrumento ou qualquer forma de arte tem que se exercitar, experimentar, treinar. Só se aprende fazendo. Existe uma enorme diferença entre os projetos que imaginamos e os que realmente colocamos em prática é como a diferença entre um romance de ficção e um encontro real de dois seres humanos, com todas as suas complexidades. Todos sabemos disso, embora inevitavelmente nos deixemos abater diante do esforço e da paciência necessários à realização de um projeto. Uma pessoa pode ter fortes tendências criativas, gloriosas inspirações e elevados sentimentos, mas sem criações concretas não há criatividade
Nos conservatórios e escolas de música existem longos corredores onde se enfileram pequenas salas de exercício, cada uma contendo um piano e uma estante, separadas por paredes mais ou menos à prova de som. Uma vez, percorrendo um desses corredores, deparei com uma sala que recentemente havia sido transformada em escritório. Um cartaz preso à porta avisava: ESTA NÃO É MAIS UMA SALA DE EXERCÍCIO. Algum malandro que viera depois havia acrescentado abaixo: AGORA ESTÁ PÉRFEITO!
A fórmula estereotipada que diz que “a prática leva â perfeição” traz consigo alguns sérios e sutis problemas. Imaginemos que a prática seja uma atividade executada em preparação para uma performance “de verdade”. Mas se separamos a prática da coisa “de verdade”, nem uma nem outra serão realmente “de verdade”. Devido a essa divisão, muitas crianças aprenderam a odiar o piano, o violino e a própria música graças a exercícios extremamente chatos. Muitas outras aprenderam a odiar a literatura, a matemática ou a simples idéia de qualquer trabalho produtivo.
O aspecto mais frustrante e aflitivo do trabalho criativo, um aspecto que enfrentamos na prática diária, é a descoberta de um abismo entre o que sentimos e o que somos capazes de expressar. “Falta alguma coisa”, dizia o mestre flautista. Muitas vezes nos observamos e sentimos que está faltando tudo! É nesse abismo, nesse território desconhecido, que experimentamos os sentimentos mais profundos – e nos sentimos mais incapazes de expressá-los.
A técnica pode transpor esse abismo. Mas também pode alargá-lo. Se encaramos a técnica como “algo” a ser atingido, caímos novamente na dicotomia entre ”prática” e “perfeição”, o que pode nos levar a um círculo vicioso. Se improvisamos com um instrumento, uma ferramenta ou uma idéia que conhecemos bem, possuímos uma sólida técnica para nos expressarmos. Mas a técnica pode se tornar sólida demais – sabemos tão bem o que deve ser feito que nos distanciamos do frescor da situação presente. Esse é o perigo inerente à competência que se adquire pela prática. A competência que perde suas raízes de diversão se transforma em rígido profissionalismo.
{...} A prática oscila entre dois pólos. Por um lado, estamos “apenas brincando”, de forma que estamos livres para experimentar e explorar sem medo de um julgamento. T. S. Eliot disse que cada palavra, cada ato, “é um passo em direção ao cadafalso, à fogueira, ao abismo”. O artista plástico Rico Lebrun disse: “nunca me perturbo na execução das formas, mas atravesso o papel como se fosse um terreno minado. Quando a travessia chega ao fim, nasce um desenho”.
A prática dá ao processo criativo um momento de calma, de modo que, quando as surpresas ocorrem (quando elas chegam a nós por acaso ou são trazidas do inconsciente), possam ser incorporadas ao organismo vivo da nossa imaginação. Aqui nós realizamos a síntese essencial – alongar os momentos de inspiração até transformá-los num fluxo contínuo. A inspiração não é mais um mero flash de percepção que surge e desaparece ao bel-prazer dos deuses.
O pintor Volpi em seu ateliê
A perícia nasce da prática; a prática nasce da experimentação compulsiva mas prazerosa (o lado brincalhão de Lila – Lila, em sânscrito significa “jogo” ou “brincadeira”;) e de uma sensação de deslumbramento (o lado divino de Lila) {...}
Para criar é preciso ter técnica e libertar-se da técnica. Para isso, precisamos praticar até que a técnica se torne inconsciente. Se tivéssemos que pensar nos passos necessários para andar de bicicleta, levaríamos um tombo. Parte da alquimia gerada pela prática é uma espécie de livre trânsito entre consciente e inconsciente. Um conhecimento técnico deliberado e racional surge da longa repetição, a ponto de podermos executar nosso trabalho até dormindo. Alguns pianistas são capazes de tocar Beethoven lindamente enquanto conversam sobre o preço do peixe. Somos capazes de escrever em nossa língua sem pensar em todo o esforço que quando crianças fazíamos para aprender a traçar cada letra.
Quando a técnica atinge um certo nível, não se consegue percebê-la. Muitas obras de arte que parecem extremamente simples na verdade podem ter representado uma batalha de vida e morte para o artista durante o processo de criação. Quando a técnica se oculta no inconsciente, revela esse mesmo inconsciente. A técnica é o veículo capaz de trazer à tona o material inconsciente contido no mundo onírico para que ele possa ser visto, falado ou cantado.
Muitos criadores referem-se a essa espécie de rumo vago que direciona o processo de construção de suas obras. Peter Brook (1994) descreve essa tendência como uma intuição amorfa, que dá senso de direção; Borges (1984), como um conceito geral e Murray Louis (1992), como uma premissa geral. O trabalho de criação não passa da perseguição a uma miragem, para Maurice Béjart (1981).
Maillol (1997) e Rodin (1990) carregam a tendência de suas esculturas com suas formas próprias de expressão. Para Maillol, a escultura deve ter a menor quantidade possível de movimento; e Rodin explica que o direcionamento é dado pelo movimento geral da escultura. Qualquer um que tenha contato com as obras desses artistas compreende a relevância do papel desempenhado pela relação estaticidade/ação.
É interessante notar que, no caso de Rodin, esse movimento geral de natureza vaga aparece nos primeiros esboços envolto em uma espécie de névoa – uma ação como contornos pouco nítidos trabalha com painéis de grandes dimensões. Para ele, as maquetes são formas de se colocar no espírito daquela obra que está por se realizar.
Intuição amorfa, conceito ou premissa geral e miragem são alguns modos de descrever o elemento direcionador do processo.
O artista, impulsionado a vencer o desafio, sai em busca da satisfação de sua necessidade. Ele é seduzido pela concretização desse desejo que, por ser operante, o leva à ação.
O artista é atraído pelo propósito de natureza geral e move-se inevitavelmente em sua direção. A tendência é indefinida, mas o artista é fiel a essa vagueza. O trabalho caminha para um maior discernimento daquilo que se quer elaborar. A tendência não apresenta já em si a solução concreta para o problema, mas indica o rumo. O processo é a explicitação dessa tendência. “No começo minha idéia é vaga. Só se torna visível por força do trabalho” (Maillol, 1997).
A tendência mostra-se como um condutor maleável, ou seja, uma nebulosa que age como bússola. Esse movimento dialético entre rumo e vagueza é que gera trabalho e move o ato criador.
O processo criador é um percurso com “um objetivo a atingir, um mistério a penetrar”, de acordo com Picasso” (1985). A intenção do artista é pôr obras no mundo. Ele é, nessa perspectiva, portador de uma necessidade de conhecer algo, que não deixa de ser conhecimento de si mesmo, como veremos, cujo alcance está na consonância do coração com o intelecto. Desejo que nunca é completamente satisfeito e que, assim, se renova na criação de cada obra.
Por isso, Italo Calvino (1990, p. 72) prefere escrever a falar pois escrevendo pode emendar cada frase quantas vezes ache necessário, para “ficar, não digo satisfeito com as minhas próprias palavras, mas pelo menos a eliminar as razões de insatisfação de que me possa dar conta”.
“Mal terminado um quadro atira-se para o seguinte na ânsia de achar satisfação para aquilo que interiormente o inquieta” (Lasar Segall). Se sua obra chegasse a se equiparar com a imagem que ele faz dela, só lhe restaria precipitar-se do pináculo dessa perfeição definitiva e se suicidar (Faukner, citado por Sábato, 1982).
A arte é uma doença, é uma insatisfação humana; e o artista combate a doença fazendo mais arte, outra arte. Fazer outra arte é a única receita para a doença estética da imperfeição (Mário de Andrade, 1989) – um processo que fica sempre por se completar, um desejo que fica por ser totalmente satisfeito.
O próprio Mário (1982, p. 210), quando termina uma de suas obras, diz a seu amigo Drummond que fez ainda várias modificações mas que agora está, senão satisfeito, mais sossegado.
“Será que algum dia alcançarei o objetivo buscado há tanto tempo e de forma tão sôfrega?“, pergunta-se Cézanne (1972, p. 336), em seu diário. “Espero. Mas enquanto não é atingido, um sentimento vago de desconforto persiste e não vai desaparecer até que eu tenha alcançado o porto, isto é, até que eu alcance algo mais promissor do que alcancei até agora”.
Stanislavski (1983, p. 275) discute, também, essa busca incessante: “Há uma satisfação estética, que nunca chega a ser totalmente completa e isto desperta nova energia”.
Essas afirmações põem em questão, como se pode perceber, a visão do processo criador como um caminho da imperfeição para a perfeição, que estaria associada à necessidade plenamente satisfeita.
Há uma forte relação entre tendências e desafios que, para se manterem como tais, precisam estar sempre em mutação. Klee (1990, p. 201) diz que, toda vez que se aproxima bastante de seu objetivo, a intensidade perde-se muito rapidamente, e precisa procurar novos caminhos. Pois produtivo e essencial é precisamente o caminho. Os papéis que ela não sabe fazer é que estimulam Fernanda Montenegro (1997). E Kurosawa (1990, p. 201) critica as pessoas que refazem continuamente filmes que foram sucesso no passado. Não tentam sonhar novos sonhos; apenas repetem velhos sonhos.
O VAZIO PLENO - Lygia Clark - 1960
FILMES PARA DESENVOLVER A CRIATIVIDADE
Agonia e êxtase – sobre o artista renascentista e pré-barroco Michelangelo – diretor: Carol Reed
A moça com brinco de pérola – sobre o pintor Vermeer Van Delft – diretor: Peter Webber
Basquiat – sobre o artista Jean Michel Basquiat – diretor: Julian Schnabel
Dolls - filme da nova geração de cineastas japoneses que encanta pela poesia e intensidade das cores dos símbolos e da aura de silêncio. Um filme inspirador e que enriquecerá o seu olhar.
Frida – sobre a artista mexicana Frida Kahlo que mostra o universo imagético e o potencial criativo da artista – diretor: Robert Rodríguez
O pianista – filme comovente especialmente quando mostra a relação do pianista Wladyslaw Szpilman, durante as tribulações da Segunda Guerra, com a sua arte. Szpilman que é judeu e está sendo perseguido, parece encontrar nos raros momentos em que toca o instrumento, uma sublimação de todas as dificuldades. diretor: Roman Polanski
Pollock – sobre o pintor norte americano Jackson Pollock – diretor: Ed Harris
Sonhos – Filme clássico que mostra em oito capítulo, oito sonhos, um panorama variado de imagens inspiradoras, intensas e, às vezes, angustiantes – diretor: Akira Kurosawa.
ESTÉTICA: teoria da formatividade, autor: Luigi Pareyson, editora: vozes
CRIATIVIDADE: liberando sua força interior, autor Osho, editora: Cultrix (se você quiser mais detalhes ou comprar o livro pela internet, clique no seguinte endereço: http://www.planetanews.com/produto/L/51184/criatividade--liberando-sua-forca-maior-osho.html)
* * SER CRIATIVO: o Poder da Improvisação na Vida e na Arte, autor: STEPHEN NACHMANOVITCH , editora: SUMMUS (você pode ler este livro clicando no seguinte endereço Ser criativo: o poder da iprovisação na vida e na arte - Resultado da Pesquisa de livros do Google) Excelente livro (clique aqui para comprá-lo na internet)
